"Ainda sonho com a Covipneus"

Fundador da Covipneus, emblemática casa de pneus da região beirã, João Almeida é sinónimo de simpatia e honestidade. Retirado do setor há três anos, confessa que ainda hoje sonha com a empresa.

A azáfama do passado já não é a mesma. E os dias correm a um ritmo diferente. Mas João Almeida, reformado há pouco mais de três anos, ainda sonha, “quase todos os dias”, com a Covipneus, casa que fundou nos idos de 1976, na Covilhã. Aos 75 anos de idade, no papel, e de aparência bem mais jovial, dedica-se, hoje, com tranquilidade, ao restauro de imóveis. Mas o comércio e o retalho de pneus novos e recauchutados e os muitos amigos que foi cultivando durante os 40 anos de atividade no ramo, ainda continuam a povoar-lhe a mente quando adormece. Não é fácil apagar da memória uma carreira tão recheada.
João Almeida recebeu a Revista dos Pneus em sua casa, em pleno coração do Fundão. Uma bela vivenda com vista para duas serras: a da Gardunha e a da Estrela. Um cenário mais do que perfeito para o trabalho de desfiar memórias. A criação da Covipneus foi uma espécie de loucura. Das boas, entenda-se. Com pouco mais de 30 anos, regressara de Angola “em condições financeiras muito difíceis”, recorda. Experiência no mundo dos pneus tivera alguma, sim senhor, mas apenas na área dos equipamentos e acessórios, adquirida nas empresas onde trabalhara nas cidades de Lisboa e em Luanda. Nada relacionado com o comércio de pneus. Quando chegou a Portugal, porém, não hesitou. Juntamente com outro sócio, descobriu uma pequena casa de pneus abandonada e em situação de insolvência, tendo partido para a negociação. “Propus pagar –lhe 25%, mas a prestações, consoante o dinheiro que fosse entrando”. Assim foi. Aos poucos, com passos pequenos, porque o espaço da casa também não os permitia maiores, a Covipneus foi fazendo o seu caminho. “Os primeiros tempos foram muito complicados”, admite João Almeida.

Ganhar corpo
Três anos volvidos sobre o início da atividade, João Almeida consegue mudar-se para outro espaço, este sim, “já com melhores condições, embora precisasse de obras”. Este foi, porventura, um dos momentos mais marcantes na história da Covipneus. A sua emancipação.
Em 1980, adquiriu a posição do sócio com quem tinha iniciado a atividade. Mais tarde, já em 1982, a sede da empresa transfere-se para o Fundão, terra que “adotou”, literalmente, João Almeida. E que ele corresponde, sentindo-a como sua.
Atualmente, a empresa dedica-se ainda ao comércio grossista de pneus e conta com serviço de mecânica, dispondo de três postos de assistência: Fundão (sede), na cidade da Guarda e um terceiro posto, o mais recente, inaugurado, em 2016, na cidade de Castelo Branco. Uma estrutura que ganhou peso e corpo, empregando já mais de 50 pessoas. Sempre com base numa filosofia muito própria: “honestidade e transparência” para com os clientes. Dois valores fundamentais que João Almeida manteve permanentemente ativos. Sempre associados a um sorriso acolhedor. Curiosamente, uma das primeiras conversas que teve, quando abraçou o negócio dos pneus, marcou-o. Era a história de um concorrente seu, que se gabava de ter vendido quatro pneus a um cliente que nem automóvel tinha. “Percebi logo que não seria a minha maneira de estar neste negócio”, esclarece. Não foi uma nem duas vezes que aconselhou clientes seus a fazer mais uns quilómetros antes de trocar os pneus. “Ora, se ainda estavam bons, não ia vender-lhes pneus só para ganhar dinheiro”, conta. Nunca foi o seu modus operandi. E acha que acabou por ser “beneficiado” por esta honestidade. “Orgulho-me de ter deixado muitos amigos neste meio”, conta.
João Almeida nunca foi um teórico. Muito mais um prático. Alguém que gosta de olhar os clientes e amigos nos olhos. “Gostava de estar no terreno, sempre com as pessoas, é muito importante”, acrescenta ainda João Almeida. Quando era novo chegou a trabalhar na Michelin, embora não fosse no ramo dos pneus. E a prova de que deixa marca positiva à sua passagem é que, desde o primeiro dia que abriu a Covipneus, o fabricante foi sempre seu parceiro-âncora.

Legado assegurado
Para o sucesso da Covipneus, muito contribuiu ainda a forma inovadora como João Almeida encarou o negócio. Foi dos primeiros a lançar um modelo de cartões que ofereciam, gratuitamente, uma reparação de furos. Pode dizer-se que fez furor na região, na altura. “Foram muitas as pessoas que, curiosas, foram à nossa casa por causa desses cartões”. Também a máquina de avaliação do estado geral do veículo antes da inspeção foi uma mais-valia. Foi um dos primeiros a obtê-la, mal esta saiu para o mercado. “Antes de ir para a inspeção, passavam por aqui e víamos, sem cobrar nada, o que precisava de ser reparado no veículo. Depois, os clientes eram livres de ir fazer o serviço a outra casa, se assim o entendessem. Mas nunca iam”, brinca. Além disso, era uma forma de aprenderem o caminho para a Covipneus. Não mais o esqueciam. O dinheiro não se ganha num dia. Um cliente, porventura, num dia consegue-se ganhar para a vida.
Por estes dias, João Almeida ainda visita regularmente a Covipneus. Será sempre a sua segunda casa. Tem orgulho no que conseguiu construir a partir do nada que trouxe na bagagem. Saudades da atividade? “Sim, tenho muitas”. Mas a sua cabeça está no sítio certo. Sempre esteve, aliás. E teve tempo de preparar a sua saída. Ponderada. De deixar o legado da empresa nas mãos corretas. Nas mãos que o ajudaram a erguer a casa ao longo dos anos. Não podia ser de outra maneira. “Está com quem deve estar e tudo está a correr muito bem”, garante João Almeida, enquanto oferece um licor caseiro, feito por si e pela sua simpática esposa. “Achei que seria sensato tomar atempadamente uma posição enquanto mantivesse capacidade de decisão”, confessa. Deixou o negócio muito antes, até, acrescente-se, porque as faculdades, essas, mantém-nas todas bem ativas.