“A Pneuport está, hoje, em grande forma”

Numa altura em que a Pneuport faz 27 anos, falámos com Rui Silva, o diretor-geral.

É um trabalho desafiante e motivador, embora cansativo, aquele que Rui Silva desempenha, desde 2014, na Pneuport, que foi criada há 27 anos. Profundo conhecedor do negócio dos pneus e dos "atores" que operam no mercado, o diretor-geral da cooperativa, no tom simpático e expressivo que o caracteriza, recebeu, de braços abertos, a Revista dos Pneus na sede da organização, situada na Av.ª de Berna, em Lisboa.

Numa entrevista incisiva e recheada de motivos de interesse, Rui Silva abordou a história da Pneuport, falou sobre o mercado e levantou um pouco o véu sobre os planos que estão em curso. No meio da sua preenchida agenda, até porque a sua atividade profissional divide-se entre Lisboa e Porto, sem esquecer os restantes distritos (percorre milhares de quilómetros por mês...), o diretor-geral da Pneuport concedeu-nos esta entrevista marcante.

Com uma faturação anual de cerca de €15.000.000, a Pneuport tem, hoje, 64 cooperadores (agentes). Aos quais se juntam, depois, dois parceiros. Como alguns cooperadores têm mais do que uma filial, a cooperativa dispõe, atualmente, de nada menos do que 76 pontos de venda. A maior parte deles faz, também, mecânica ligeira. Contudo, o core business da Pneuport são os pneus, que reúnem cerca de 90% do seu volume de faturação. A cooperativa trabalha com todos os fabricantes, está presente em todos os segmentos de mercado e tem ligações com todos os revendedores. Na categoria de turismo, dispõe de uma marca (quality) dedicada, a Sportiva, que é produzida pela Continental. Já no que toca a recursos humanos, a Pneuport conta com oito colaboradores, dos quais cinco são internos e três dizem respeito a empresas em regime de outsourcing.

 

Em que ano nasceu a Pneuport? Qual foi a ideia que esteve na génese da sua criação?
A Pneuport nasceu em 1989, mais concretamente no dia 2 de agosto. O propósito da sua criação prendeu-se com o facto de as casas de pneus de renome existentes em Lisboa e arredores (Almada, Seixal, Oeiras e Mafra também estavam representadas) terem decidido unir-se para, comprando em maior quantidade (através de uma central de compras), conseguirem melhores preços. E, dessa forma, aumentarem a rentabilidade dos seus negócios. Nessa altura, esta ideia era muito premente. Até porque os fabricantes privilegiavam quem fazia compras em grande volume. A Pneuport, nos primeiro e segundo anos de vida, já estava com um volume de faturação na ordem dos €3.000.000. A Pneuport nasceu pela mão de 16 empresas, que eram pontos de venda de referência na altura. Hoje, a maioria destas entidades ainda se mantém connosco. A Pneuport (cuja designação advém de Pneus Portugueses), teve, há 27 anos, esta ideia inovadora, fruto de uma necessidade que foi identificada em Lisboa e arredores.

Qual a vantagem da Pneuport em ser uma cooperativa?
A Pneuport C.R.L. foi criada, efetivamente, como cooperativa em 1989. E assim se mantém. Aliás, não é possível, legalmente, alterar este estatuto. Alguns elementos que estiveram na origem da fundação estavam ligados ao setor cooperativo. O peso institucional de uma cooperativa é muito diferente. O estatuto de uma cooperativa “obriga-a” a viver para o cooperador (aderente) e vice-versa. A cooperativa agrega, de uma forma mais vinculativa, a relação entre empresa e cooperador. A cooperativa, ela própria, é dos cooperadores, tendo estes o mesmo direito de voto nas assembleias gerais. A Pneuport foi crescendo com os cooperadores e estes com a cooperativa. Quem faz a gestão do ponto de venda é, exclusivamente, o cooperador. Não temos qualquer interferência no modelo de gestão das empresas. Mais: o cooperador não tem qualquer custo com a cooperativa. Teve-o no início, quando entrou.

A nível de imagem, a Pneuport tem investido bastante?
Sem dúvida. Para comunicar ao mercado a uma só voz, temos de ter imagem, notoriedade. Que não passa, necessariamente, por ter apenas uma fachada com um logótipo. No início, não foi fácil convencer os cooperadores a alterarem a imagem das suas casas. O nosso consumidor final de Vinhais tem de perceber o que é a Pneuport, tal como o nosso consumidor final de Faro. Caso contrário, se não houver comunicação, seremos muito conhecidos apenas em Lisboa. Na Av.ª de Berna, onde está a nossa sede, somos uma grande empresa. E esta tem sido a grande preocupação da Pneuport nos últimos anos: aumentar a notoriedade da organização e fazer com que os nossos pontos de venda tenham uma visibilidade maior. Como costumo dizer, hoje, temos de fazer muito mais com muito menos. Não há outra hipótese. Quem está no negócio dos pneus ganha, atualmente, menos dinheiro do que no passado. Até pode vender mais, mas ganha menos.

Que diferenças existem entre a Pneuport de 1989 e a de hoje?
Na época em que apareceu, a Pneuport foi uma grande organização com os propósitos que tinha. Hoje, a Pneuport continua a ser uma grande organização, mas com outros propósitos. A grande diferença deve-se à mudança que ocorreu no mercado. Aquilo que esteve na génese da criação da Pneuport foi correto. Os seus criadores fizeram uma leitura perfeita, foram audazes, pioneiros e tiveram visão. Não ficaram acomodados à sua dimensão nem à grandeza do seu negócio. Olharam mais para diante. E fizeram com que muitos operadores começassem a olhar para o mercado dos pneus de forma diferente. Hoje, mesmo vivendo-se uma nova realidade (a rentabilidade dos pontos de venda é diferente; o fee de intermediação alterou-se), a Pneuport está em grande forma. Fundamentalmente, temos uma visão clara e absoluta daquilo que somos e para onde queremos ir. Mas houve necessidade de profissionalizar mais a Pneuport. Temos, atualmente, um controlo muito mais apertado de tudo. Somos uma estrutura que mantém inalterados os princípios da sua fundação, assim como continuamos a ter a mesma relação humilde com os nossos cooperadores. Desde que estes sejam cumpridores, conseguirão, de uma forma ou de outra, fazer vingar o seu negócio. A Pneuport está cá para ajudá-los, dando-lhes condições e prestando-lhes todos os esclarecimentos que entendam necessários.

Quais são os principais desafios que a Pneuport enfrenta?
Antes de mais, fazer com que os nossos cooperadores tenham mais serviço. Trabalhar o mercado das frotas e, também, o do consumidor final. Depois, estamos a desenvolver um site muito mais dinâmico, que visa os negócios B2C e B2B. Queremos ser uma central de vendas mais pró-ativa para com o cooperador, até porque dispomos de faturação centralizada. Há pouco tempo, criámos um número de telefone e um email para ajudar, sem qualquer custo, os nossos cooperadores nas áreas jurídica, contabilística, económico-financeira e de gestão. Além disso, pretendemos que a Pneuport seja conhecida no mercado como uma rede de centros auto. Temos intenção de aumentar geograficamente a nossa rede a, pelo menos, todas as capitais de distrito. Brevemente, avançaremos com uma ação de captação de novos parceiros de negócio. Mas o nosso core business serão sempre os pneus, que reúnem cerca de 90% do volume de faturação da Pneuport. Contudo, queremos equilibrar a nossa faturação nas peças auto.

Como se processa a dinâmica do vosso negócio?
Os nossos cooperadores, que têm acesso aos sites dos fabricantes e fornecedores, colocam as encomendas e têm toda a legitimidade negocial com quem lhes abastece. A Pneuport trabalha virtualmente com os stocks dos fabricantes e fornecedores. A única intervenção que fazemos neste circuito ocorre no início do ano, quando discutimos as condições negociais com fabricantes e fornecedores. Depois, analisamos se os protocolos estabelecidos estão a ser cumpridos e fazemos um controlo que tem a ver com gestão interna. O lucro da Pneuport advém do fee de intermediação que o fabricante lhe entrega. Não é retirado às condições comerciais dos cooperadores. Claro que quanto mais elevado for o nosso volume de faturação anual, maior será o fee que nos é atribuído. Outra situação em que interferimos no negócio está relacionada com os casos em que os cooperadores se sentem lesados.

Quando sentiram os vossos cooperadores necessidade de introduzirem a mecânica ligeira no negócio?
Na verdade, alguns dos nossos cooperadores já trabalhavam em mecânica na altura da criação da Pneuport. Diria que os retalhistas sempre olharam para os pneus como a única motivação do seu negócio. E onde é que isto começa a mudar? Quando os operadores de mecânica começaram a “intrometer-se” nos pneus, com novas formas de receção e novas abordagens ao consumidor. Hoje, o ponto de venda tem de olhar para o cliente como um todo. E não pode querê-lo apenas para um dia. Costumo dizer que se um pai frequenta a casa de pneus mas o filho não, é caso para a empresa ficar apreensiva. A sobrevivência do negócio faz-se através da fidelização, não de uma geração, mas de várias. E a diversidade de serviços desempenha, também, um papel preponderante.

Hoje, têm cooperadores e parceiros. O que distingue uns e outros?
Criámos, efetivamente, há cerca de um ano, uma modalidade que não tínhamos dentro da cooperativa. Além dos cooperadores, dispomos, agora, de dois parceiros Pneuport. Estes usufruem das mesmas vantagens da cooperativa, mas não fazem parte do património da organização. No entanto, poderão fazê-lo a qualquer altura. Basta que despendam dinheiro para esse efeito. Estatutariamente, os parceiros pertencem também à Pneuport mas não têm direito de voto nas assembleias gerais. Esta é uma modalidade que queremos explorar. O grande objetivo desta estratégia passa por criar volume de negócio. Se os nossos pontos estiverem bem, nós também estamos. Até porque os pontos de venda não são da Pneuport. A Pneuport é que pertence aos pontos de venda.