“Estou preparado para enfrentar todos os grupos espanhóis”

José Lourenço fundou a empresa que tem o seu nome em 1963 e mostra-se confiante em relação ao futuro do grupo, que vende maioritariamente pneus para veículos pesados.

O Grupo José Lourenço Pneus abriu, recentemente, o seu 15.º ponto de venda em Albergaria-a-Velha, sendo responsável por 10% das vendas de pneus pesados em todo o país e 30% da faturação da Michelin em Portugal (em pneus pesados).

O Grupo José Lourenço dispõe de uma média de 20.000 pneus em stock e, no ano passado, vendeu 42.200 pneus, a maioria dos quais para camiões.

Em entrevista à Revista dos Pneus, José Lourenço destaca o percurso de sucesso do grupo, sempre baseado numa oferta alargada de produtos premium e na prestação de serviços de excelência.

Quando foi fundada a José Lourenço e quais foram os momentos mais marcantes da vida da empresa?
A José Lourenço foi fundada em 1963. O momento mais marcante foi a revolução do 25 de Abril, onde várias empresas fecharam, os juros dispararam para os 30% e ainda se registou escassez de produtos.

Que fatores mais importantes destaca no funcionamento da sua empresa?
Somos independentes, livres no mercado. Temos um património próprio, não pagamos juros nem rendas, não dependendo de entidades bancárias nem de fornecedores.
As nossas instalações estão todas equipadas com a melhor tecnologia. Que, aliadas a funcionários bem formados, conseguem oferecer serviços de excelência aos nossos clientes.
Para além disto, de salientar a distribuição geográfica e estratégica das nossas filiais. Seja no norte, centro ou sul, estamos presentes com pontos de venda e assistência de excelentes acessibilidades. E quando o cliente não pode vir ter connosco, temos oficinas móveis para assistir o cliente, dentro ou fora da estrada.

Há quanto tempo trabalha com a Michelin? Qual a importância desta marca para o sucesso da sua empresa?
Desde sempre trabalho com a Michelin. Fomos dos primeiros a vender pneus Michelin em Portugal. O Grupo Michelin na minha casa representa 45% do movimento. Somos conservadores e sempre fizemos parcerias com marcas "difíceis". Como oriento uma empresa organizada, tenho muito gosto e interesse em trabalhar com a Michelin, sou fiel a parceiros saudáveis. A Michelin é um produto bom e não nos dá chatices.

Destaque os pontos de viragem críticos do comércio de pneus em Portugal?
Nos últimos anos, a crise que se instalou no mercado dos pneus obrigou empresários espanhóis, e não só, a procurarem outros mercados. Um deles foi Portugal, que foi invadido por vários grupos.
Outra situação grave, são os chamados pontos de venda com "portas de 80 cm", e não só, que importam pneus, principalmente de Espanha, e que julgam que não é preciso prestarem contas ao Estado português.

Considero que deveríamos ter uma associação que nos ajudasse a resolver este problema da importação de pneus, que é a dos mais graves. Não só para as empresas organizadas mas, também, para o Governo.

De que forma analisa a evolução do grau de profissionalismo e ética do negócio, na relação fabricante/agente?
Nos últimos anos, a procura tem sido inferior à oferta e os fabricantes e importadores dedicaram-se a vender pneus diretamente ao consumidor. O agente deixou de ser peça fundamental para eles.

Como analisa o fenómeno das deslocalizações dos centros logísticos e dos centros de poder dos fabricantes de pneus para Espanha? Afetou o mercado positivamente ou negativamente?
Na minha maneira de ver, foi benéfico, pois os espanhóis são mais organizados neste setor. É bom para todos quando alguém tenta organizar o mercado.

Que balanço faz da revolução dos canais de distribuição vivida no final dos anos 90 e primeira década de 2000?
Estamos a entrar num mundo moderno dos novos canais de distribuição. No entanto, essa vertente ajusta-se mais aos pneus de turismo e pouco mais. Os pneus são como os veículos, necessitam de assistência, daí ser necessário haver responsabilidade em prestar serviços de qualidade aos mesmos.

Acredita que as vendas online e os grandes portais de comércio de pneus vão mudar o negócio destes componentes?
Não vou muito por aí. Poderei estar errado, mas quando compro uma máquina, um veículo ou uma ferramenta, procuro saber e garantir se me oferecem assistência e onde.

Qual o melhor momento que viveu no decurso da sua atividade profissional? E o menos agradável?
O melhor momento que vivi profissionalmente foi nos anos após o 25 de Abril. Com a falta de produtos, havia subidas mensais e até semanais. E quem tinha stocks recheados criava riqueza.
O pior momento tem sido esta longa crise mundial que temos vivido nestes últimos e longos anos, da avalanche de insolvências que originou uma inevitável quebra nas vendas. Mas, também, empresários com pouco estímulo para o investimento que trocam pneus por dinheiro sem criar mais-valias.

Como analisa o estado atual do comércio de pneus em Portugal e de que forma a crise global tem afetado o desenvolvimento do mercado de pneus?
Nos últimos anos, o mercado dos pneus tornou-se numa selva sem respeito. Importa-se, exporta-se, casas de pneus sem quaisquer condições fazem movimentos de milhões. Não sei como nem porquê, as autoridades alfandegárias é que terão de analisar esse mercado ou talvez a Valorpneu. Pois, na minha maneira de ver, mais de 20% dos pneus que se consomem em Portugal não pagam contribuição ao Estado.

Que apreciação faz do excesso de marcas à venda no mercado, a maioria vinda dos países asiáticos?
É um fenómeno que toda a Europa herdou graças ao mercado global, incluindo Portugal. Mas eu continuo a apostar nas marcas premium. Tenho um ponto de venda em Lisboa e os chineses compram Michelin, Continental, entre outras, mas todas marcas premium.

Como encara a José Lourenço a venda de pneus usados?
É um negócio que não conheço. Nunca foi, nem será, a nossa filosofia. Aposto na qualidade e não pretendo vender a um cliente algo que outro deitou fora.

Qual foi a estratégia que delinearam para 2016? Quais são as expectativas de volume de negócio para este ano?
Pretendo acompanhar as grandes empresas, principalmente as espanholas que estão no nosso mercado. Somos a única empresa portuguesa distinguida pela Michelin com o título "one2one". Quando a Michelin criou o franchising "Euromaster", fomos nomeados pelo diretor mundial da Michelin de pesados como parceiros "one2one", título máximo em toda a Europa. Com isto, sinto-me preparado para enfrentar todos os grupos espanhóis e não só.